sábado, 1 de dezembro de 2007

Sobrenome




































SOBRENOMES

Nesta tarde Lorenzo comentou com Fortunato que conheceu uma familia, em Parma, sua cidade natal, de sobrenome Polesello.
Foi a deixa para que Fortunato começasse a falar sobre um assunto que lhe era muito prazeroso: genealogia da familia.
Contou ao amigo Lorenzo que sua família viveu sempre no Veneto, na província de Treviso. No séc. XVII, seu ancestral Marco Polesel e sua esposa Agnola, viveram e morreram na frazione de Bibano, na comune de Godega di Sant’Urbano. Os descendentes deste casal pioneiro também viveram em Bibano: Mattio (1633-1698), Giuseppe (1666), Angelo (1709-1782).
Até que Andréa, filho de Angelo e Maria Rosada, emigrou para a frazione de Francenigo, em Gaiarine. Andréa nasceu em 1734, em Bibano e morreu em Francenigo em 1820. As gerações que vieram depois de Andréa nasceram e morreram em Francenigo, Gaiarine. Giacomo (1674), Giuseppe (1793) e Pietro (1831), pai de Fortunato. Foi neste local que Fortunato, Regina e seus dois filhos nasceram, mas estavam imigrando para o outro lado do mundo... Outros ancestrais viveram em Mansué e Basalghele.
Lorenzo estava cada vez mais admirado com tanta informação. Fortunato explicou que, por ter estudado com os padres, teve acesso livre aos livros paroquiais. Copiava as informações sobre sua família e montava assim, sua árvore genealógica. Lorenzo gostou do assunto e quis saber o porquê das diferenças de grafia na escrita do sobrenome Pollesel.
Fortunato explicou que estas diferenças estão presentes desde os primeiros registros religiosos e civis de seus antepassados e que, na verdade, nunca existiu um consenso sobre qual seria a forma correta da escrita. A única certeza era que a escrita POLESEL era a mais antiga e aparece desde o séc. XVI. O primeiro ato oficial conhecido é o registro de batismo de Iseppo, escrito em 19 de março de 1674 pelo Padre Giorgio di Cancian, de Bibano, que diz assim: “Iseppo, filho de legítimo matrimonio de Mattio Polesel e di Maria, sua mulher".
Explicou ainda que a escrita POLESEL aparece no batismo das quatro gerações seguintes: Mattio (1633), Giuseppe (1674), Angelo (1709) e Andréa (1734). Já nos descendentes de Andréa aparece a escrita POLLESEL. Giácomo (1759), Giuseppe (1793), Pietro (1831) e com o próprio Fortunato, que nasceu em 1870. Esta mudança de grafia se dá com Andréa e é ele também que migra de Bibano para Francenigo.
Fortunato mostrou a Lorenzo uma curiosidade que ele havia garimpado nos livros paroquiais de Bibano, no “Líber descriptorum in Ecclesia S.ti Martino di Bibano ..”
Seu tio-avô Giobatta, nasceu em 1775 e foi batizado como POLESELLO, mas seu avô Angelo (1709) era POLESEL, e seu filho Sebastiano (1797) era POLESEL e seu neto Vincenzo (1827) era POLLESEL.
Com um único exemplo demonstrou ao amigo que a falta de consenso sobre a forma de escrita remonta ás mais antigas origens.
Lorenzo fica imaginando o quanto é interessante o estuda da genealogia. Ficou com vontade de pesquisar também.

Embarque no porto de Genova




















Fortunato Pollesel
Regina Gobbo

O EMBARQUE EM GENOVA

Fortunato, Regina, Giovanni e Elisa chegaram ontem em Genova. Mesmo exaustos da viagem de mais de trezentos quilômetros, num trem lento, foram até o escritório da "Navegazione Generale italiana" para conferir os papéis do embarque e assegurar-se do horário da partida. Com os bilhetes da passagem em mãos e com o passaporte carimbado tratam de arrumar um quarto de pensão para passarem a noite. O preço era alto, uma lira, mas precisavam descansar e acomodar as crianças e a hospedaria de Genova não oferecia boas condições. Aquela seria a última tarde na Itália e era a primeira vez que a familia saia junta para um passeio. Fortunato havia morado na capital da província, Treviso, no período que serviu o exército, mas Regina e as crianças nunca haviam saído de Francenigo e dos arredores de Gaiarine. Tudo era novidade e a cara de espanto de Regina e das crianças divertiam Fortunato. A galeria Vittorio Emanuele, o monumento a Cristóvão Colombo, o descobridor da América e o mais especial, o jardim zoológico! Cegonhas, avestruzes, vacas, macacos e pássaros era uma verdadeira festa para Joanin que corria em todas as direções, alucinado com a visão de tantos animais. De volta á pensão, exaustos e famintos, cearam o restante do lanche trazido de casa, frutas secas, pão, queijo e azeitonas. A ocasião merecia e Fortunato foi até a cantina e trouxe um litro de vinho, tinto e seco, e o melhor, produzido no veneto! “Valeu ter investido a última lira, afinal é a nossa última noite na Itália”.
Fortunato insistiu e Regina aceitou um pouco para o brinde: "Viva l'Mérica! L'América!". O sono veio logo e trataram de dormir, pois amanha seria o grande dia, o embarque para o Brasil.
Era final de outono e fez muito frio á noite. Mesmo assim, ás seis horas estavam a caminho da Igreja de Nossa Senhora da Anunciação, imensa, "a mais monumental da região da Ligúria", como havia dito a dona da pensão. Fortunato caminha rápido e puxa Joanin, que choraminga sonolento. Regina vai com Elisa no colo, que dorme bem embrulhada e amamentada. A igreja está lotada e percebe-se pelas expressões e pelas malas que a maioria dos fiéis farão o mesmo trajeto: América! Pedem a proteção de "Dio Padre" e da "Madonna Santa" nesta aventura de atravessar o Atlântico rumo ao Brasil. Fica para trás a família, os amigos, os costumes, as tradições, tudo, enfim.
O padre, velho e arqueado, inicia a celebração: “Gratiam tuam, quaesumus, Domine, mentibus nostris infunde, ut qui, angelo nuntiante, Christi Filii tui Incarnationem cognovimus, per Passionem eius et Crucem ad resurrectionis gloriam perducamur. Per eundem Christum Dominum nostrum. Amen.".
Fortunato tenta organizar os pensamentos enquanto rezam e cantam: “Deus, qui per resurrectionem Filii tui, Domini nostri Jesu Christi, mundum laetificare dignatus es, praesta, quaesumus, ut per eius Genitricem Virginem Mariam, perpetuae capiamus gaudia vitae. Per eundem Christum Dominum nostrum”.
Após a missa voltam para a pensão pegar as malas, se é que três sacos amarrados pela boca podem ser chamados assim.
Ás 10 horas a fila está imensa no cais. O embarque é lento e aos gritos, que se misturam aos longos e tristes apitos dos vapores que partem.
A visão do vapor que os espera é assustadora. O "Manilla" era imenso e sua figura marrom dominava o horizonte causando todo tipo de sentimento: medo, ansiedade, excitação e admiração. "Meu Deus, como é que isto não afunda?" era a frase mais ouvida entre os camponeses que, em sua maioria, nunca tinham visto um navio antes.
Na mão firme de Fortunato está o passaporte onde se lê em letras desenhadas:
"IN NOME DI SUA MAESTÁ UMBERTO I, PER GRAZIA DI DIO E PER VOLONTA DELLA NAZIONE RE D'ITALIA". Além do passaporte leva também o “Certificato di cambiamento di residenza”, “Passaporto per l’interno” e “Schieda di famiglia” emitidos pelo município de Gaiarine e “Foglio di congedo illimitado” emitido pelo exército italiano. "Tanta pompa e tanto papel pra me expulsar do meu país”, pensa ele.
Regina carrega Elisa e grita com Joanin, que não fica quieto. Muito lentamente a fila começa a se movimentar. Afinal são mais de 1.500 imigrantes que embarcarão. Agrupam-se por famílias, 329 famílias, e esperam pela chamada.
O capitão inspeciona enquanto os funcionários da agencia de imigração gritam os sobrenomes: “Manfredi, Rapharella, Ruffoni, Spolti, Leregni, Versetti”... Vai demorar pra chegar a vez, pois a familia POLLESEL está na 103a. posição nesta listagem.
“Travisan, oielli, Clauboni, Colangeli, Rossi, Pettori...” continua a chamada e a confusão de crianças, velhos, mulheres prestes a dar á luz, entram naquele vapor imenso, assustados como animais sendo engaiolados numa jaula flutuante.
Já era noite quando o Manilla começa a se movimentar rumo ao oceano. O apito triste quebra o silencio da noite enquanto rasga as águas calmas do mar da Ligúria rumo ao mar Tirreno no trajeto pré estabelecido: Nápoles, Palermo, Ilhas Canárias e Cabo Verde, na costa da África e por fim, América.
No porto que fica, chapéus e lenços tremulam. Nos imigrantes que vão, a certeza de que não voltarão a ver seu país e sua gente. Olham fixamente no porto na esperança de reter na memória esta última imagem da terra que não conseguiu dar-lhes nada, sendo que eles queriam tão pouco... O sanfoneiro toca e alguém canta:
"Mérica, Mérica, Mérica cosa sara sta Mérica. Mérica, Mérica, Mérica L'é un bel mazzolino di fior."