sexta-feira, 7 de março de 2008

Antonina Gobbo Della Valentina

(foto de Antonia Gobbo Della Valentina, resgatada graças á pesquisa incansável de seu bisneto Luiz Carlos Della Valentina, da cidade de Umuarama/PR.)

As refeições não eram grande coisa , mas para muitos daqueles imigrantes era melhor que em casa. Eram servidas duas vezes ao dia com sopa, um pedaço de carne, um pouco de vinho e pão. Como o pão era o único alimento servido á vontade, Regina precavia-se em guardar alguns para matara fome que vinha fora de hora. Existia um racionamento de alimentos tanto que, cada chefe de família, ao embarcar recebia uma listinha de alimentos e bebidas que teriam direito durante a viagem.
Já estamos no décimo dia da viagem e Regina sentia-se feliz e bem integrada á nova rotina. Não sentia mais enjôos e dores de estomago. A maior dificuldade ainda era acostumar-se com a água. Era turva e ficava guardada em um caixão de chumbo. Era impregnada deste metal. Não se bebia em copos, mas com canudinhos de chumbo, o que a tornava mais repugnante ainda. Regina e as outras mães, preocupadas com as crianças, usavam um lenço como filtro.
Apesar desta dificuldade com a água, eles estavam felizes e robustos, talvez devido ao descanso e ao ar salino. E o melhor é que estavam cheios de esperança, na certeza de que tinham feito a opção certa.
Todas as tardes, após a sesta , subiam ao convés onde havia muitas brincadeiras para as crianças, jogos de baralho para os homens e as mulheres aproveitavam para tomar um pouco de sol. Enquanto isso faziam crochê, tricô, bordados, batiam longos papos e se extasiavam com a vista magnífica do oceano atlântico.
Nesta tarde Regina sentou-se ao lado de Verônica Deliberalli, esposa de Pietro, que fora antiga vizinha de seus pais, em Francenigo. Esta jovem senhora conhecia bem toda a família de Regina; seus pais, Giovanni e Teresa e principalmente sua irmã Antonina. Verônica quis saber detalhes da trágica história de Antonina, que mais parecia coisa de livro.
Regina contou de bom grado, pois seria bom relembrar pedaços de tudo que havia acontecido há três anos atrás: Antonia, ou Antonina como a família a chamava, estava noiva, há 5 anos, de um oficial do Regimento da Cavalaria Italiana, como Fortunato, seu marido também o fora. Assim que recebeu baixa na cavalaria acertaram a data do casamento e deram início aos preparativos. Na semana do casamento o noivo começa a passar muito mal, com febres altíssimas, e ele acaba morrendo na quinta-feira anterior ao casamento, que seria no sábado! Antonia fica em desespero, pois todos os seus sonhos de felicidade ao lado do noivo vão por terra. E a ironia maior é que da janela de seu quarto avista o túmulo do noivo. Ela consumia-se em dor e melancolia a ponto de seus pais temerem o pior, até mesmo o suicídio. A única certeza comum a todos é que somente uma grande mudança poderia faze-la reagir aquela situação insólita. E foi baseado nesta certeza que todos a incentivaram a aceitar a proposta de casamento que recebeu após seis meses de luto. O pretendente era Luigi Della Valentina, antigo conhecido da família, que ficara viúva recentemente, com dois filhos pequenos. Luigi estava bastante desgostoso e queria emigrar para o Brasil logo após o casamento com Antonina. Casam-se em maio de 1894, na Igreja Matriz de São Tiziano, em Francenigo e no dia 01 de agosto do mesmo ano já estavam desembarcando em Santos. A travessia foi feita no vapor “Caffaro”. Estabeleceram-se em Itatiba, numa fazenda de café. Nesta cidade nasceram os dois primeiros filhos do casal, Nazareno em 1895 e Joaquim em 1896, que se juntaram aos dois do primeiro casamento de Luigi, Sante e Enrico.
E pra finalizar o longo papo, Regina ajeita os últimos pontos do bordado e conta para Verônica que é pra Itatiba que eles estão indo. Luigi convidou Fortunato para trabalharem numa imensa fazenda de café, de propriedade do Barão de Ibitinga e Fortunato sem nunca ter sido agricultor aceitou de imediato”. A possibilidade de rever sua única irmã, após três anos de separação, a deixava feliz.

Cavalaria


Cavalaria

Esta já era a segunda noite que Fortunato não conseguia pegar no sono. Sentia o estomago revirando e a cabeça doía. Caminhava pelas dependências da terceira classe e espiava o mar revolto pela escotilha. Tentava organizar os pensamentos e as lembranças, mas tudo estava muito confuso em sua mente castigada pela insônia. Mas um pensamento era recorrente, a cavalaria. Foram quatro longos anos cuidando das armas, do uniforme que tinha que estar impecável, das montarias e da disciplina rígida. Via com nitidez, em suas lembranças, o cartaz afixado na porta principal da Igreja de São Tiziano, em Francenigo, convocando os jovens nascidos em 1870 para se apresentarem no serviço militar obrigatório. Era o ano de 1888 e Fortunato mal completara 18 anos. No dia e hora determinado apresentou-se e foi relacionado na “lista de leva” (1). Ele e outros dois jovens camponeses foram escolhidos por sorteio para se apresentarem á seleção médica, no mês seguinte, em Treviso.
O exame foi humilhante. Foram obrigados a despirem-se publicamente sob a guarda de carabineiros armados, em pleno inverno. Foram observados em todos os detalhes, como animais em exposição. Estendiam os braços para traz, para frente e para o alto e ainda, mediram seus tórax. A ansiedade era grande e no final do exame Fortunato ouviu a tão temida sentença: hábil para o serviço militar.
De volta á Francenigo para despedir-se da família e pegar uma trouxa de roupas, encontrou seus pais, Pietro e Caterina, arrasados com a notícia, pois a partir daquele dia não poderiam contar com sua ajuda no cultivo da lavoura. Domenico, o irmão mais velho, revoltou-se com a idéia da sobrecarga de tarefas e nem ao menos quis despedir-se do irmão caçula.
Mas não era possível fazer nada. Fortunato estava recrutado para o Regimento Italiano de Cavalaria e teria que obedecer, sob pena de prisão.
Ele estava resignado, pois a vida no campo não lhe agradava, mas sentia por Regina, sua namorada desde a infância. Os planos de casamento teriam que esperar, pois o alistamento poderia demorar até sete anos. Ela tentou parecer forte e encheu o noivo de palavras animadoras, apesar da decepção que esta convocação causara.
O quartel da cavalaria era em Veneza. E o dia a dia era de afazeres leves, se comparados com a vida no campo. A comida era pouca em vista do costume veneto de matar a fome com muita polenta, mas pelo menos, era limpa e saborosa. Os recrutas burgueses recebiam dinheiro e alimentos de suas famílias, mas os camponeses pobres, como Fortunato ficavam entregues á próprias sorte. Ele não recebia qualquer ajuda de sua família. Mas contava com a ajuda regular de Regina. Ela confeccionava toalhas em crochê e bordados em ponto cruz, que vendia e enviava o saldo destas vendas ao noivo militar. Era pouco dinheiro, mas somado ao pequeno soldo que ele recebia, tornava-se suficiente até para pequenos luxos: o jornal aos domingos, o tabaco de mastigar e, raramente, um copo de vinho, na cantina ao lado do porto.
Fortunato preferia esquecer das punições injustas e das reprimendas recheadas de insultos que sofreu no quartel e pensar que o serviço militar teve seu lado positivo. Neste período ele tornou-se leitor freqüente dos jornais, freqüentava a biblioteca da cidade e seu vocabulário em italiano enriqueceu bastante, pois em casa somente utilizava o dialeto veneto. A convivência com jovens de outras regiões da Itália fez com que sua cultura e visão de mundo, ampliassem. Descobriu novos e variados hábitos de vida, pois Veneza estava á beira mar e recebia pessoas do mundo todo, por ser a capital regional.
No final das contas sentia muito orgulho dos quatro anos passados na Cavalaria. Além do mais ele aprendera o ofício de alfaiate, que o livrou definitivamente da lida no campo.
Tantas lembranças trouxeram o sono e Fortunato foi para a cabine onde Regina e as crianças dormiam embalados pelo mar. Já era madrugada e logo amanheceria. Olhando para sua pequena família era impossível não pensar no maldito duelo com aquele sargento desprezível, mas tinha que dormir. Esta história teria que ficar para outro dia.

(1) relação dos jovens que se alistavam para o serviço militar.