sexta-feira, 7 de março de 2008

Cavalaria


Cavalaria

Esta já era a segunda noite que Fortunato não conseguia pegar no sono. Sentia o estomago revirando e a cabeça doía. Caminhava pelas dependências da terceira classe e espiava o mar revolto pela escotilha. Tentava organizar os pensamentos e as lembranças, mas tudo estava muito confuso em sua mente castigada pela insônia. Mas um pensamento era recorrente, a cavalaria. Foram quatro longos anos cuidando das armas, do uniforme que tinha que estar impecável, das montarias e da disciplina rígida. Via com nitidez, em suas lembranças, o cartaz afixado na porta principal da Igreja de São Tiziano, em Francenigo, convocando os jovens nascidos em 1870 para se apresentarem no serviço militar obrigatório. Era o ano de 1888 e Fortunato mal completara 18 anos. No dia e hora determinado apresentou-se e foi relacionado na “lista de leva” (1). Ele e outros dois jovens camponeses foram escolhidos por sorteio para se apresentarem á seleção médica, no mês seguinte, em Treviso.
O exame foi humilhante. Foram obrigados a despirem-se publicamente sob a guarda de carabineiros armados, em pleno inverno. Foram observados em todos os detalhes, como animais em exposição. Estendiam os braços para traz, para frente e para o alto e ainda, mediram seus tórax. A ansiedade era grande e no final do exame Fortunato ouviu a tão temida sentença: hábil para o serviço militar.
De volta á Francenigo para despedir-se da família e pegar uma trouxa de roupas, encontrou seus pais, Pietro e Caterina, arrasados com a notícia, pois a partir daquele dia não poderiam contar com sua ajuda no cultivo da lavoura. Domenico, o irmão mais velho, revoltou-se com a idéia da sobrecarga de tarefas e nem ao menos quis despedir-se do irmão caçula.
Mas não era possível fazer nada. Fortunato estava recrutado para o Regimento Italiano de Cavalaria e teria que obedecer, sob pena de prisão.
Ele estava resignado, pois a vida no campo não lhe agradava, mas sentia por Regina, sua namorada desde a infância. Os planos de casamento teriam que esperar, pois o alistamento poderia demorar até sete anos. Ela tentou parecer forte e encheu o noivo de palavras animadoras, apesar da decepção que esta convocação causara.
O quartel da cavalaria era em Veneza. E o dia a dia era de afazeres leves, se comparados com a vida no campo. A comida era pouca em vista do costume veneto de matar a fome com muita polenta, mas pelo menos, era limpa e saborosa. Os recrutas burgueses recebiam dinheiro e alimentos de suas famílias, mas os camponeses pobres, como Fortunato ficavam entregues á próprias sorte. Ele não recebia qualquer ajuda de sua família. Mas contava com a ajuda regular de Regina. Ela confeccionava toalhas em crochê e bordados em ponto cruz, que vendia e enviava o saldo destas vendas ao noivo militar. Era pouco dinheiro, mas somado ao pequeno soldo que ele recebia, tornava-se suficiente até para pequenos luxos: o jornal aos domingos, o tabaco de mastigar e, raramente, um copo de vinho, na cantina ao lado do porto.
Fortunato preferia esquecer das punições injustas e das reprimendas recheadas de insultos que sofreu no quartel e pensar que o serviço militar teve seu lado positivo. Neste período ele tornou-se leitor freqüente dos jornais, freqüentava a biblioteca da cidade e seu vocabulário em italiano enriqueceu bastante, pois em casa somente utilizava o dialeto veneto. A convivência com jovens de outras regiões da Itália fez com que sua cultura e visão de mundo, ampliassem. Descobriu novos e variados hábitos de vida, pois Veneza estava á beira mar e recebia pessoas do mundo todo, por ser a capital regional.
No final das contas sentia muito orgulho dos quatro anos passados na Cavalaria. Além do mais ele aprendera o ofício de alfaiate, que o livrou definitivamente da lida no campo.
Tantas lembranças trouxeram o sono e Fortunato foi para a cabine onde Regina e as crianças dormiam embalados pelo mar. Já era madrugada e logo amanheceria. Olhando para sua pequena família era impossível não pensar no maldito duelo com aquele sargento desprezível, mas tinha que dormir. Esta história teria que ficar para outro dia.

(1) relação dos jovens que se alistavam para o serviço militar.