terça-feira, 5 de outubro de 2010

A herança do Padre Vicentão




A herança do Padre Vicentão
Claudinei Pollesel

Recebi parte da herança material do Padre Vicente Tonetto, missionário xaveriano morto no mês passado.
Misto de alegria e surpresa pois não sendo da família, apenas amigo e admirador deste velho missionário italiano que tanto fez por Piracicaba, não me imaginava incluído entre os beneficiários de sua herança.

Quem me repassou a minha parte, o meu quinhão, foi o Padre Giovanni Murazzo, Provincial dos Missionários Xaverianos. Como superior cabe á ele a responsabilidade e o dever de elencar e encaminhar os pertences e bens do confrade morto.

Recebi a minha preciosidade, a minha jóia mais rara no caminho entre a matriz da Paulicéia e a capela da Água Branca. Estava ciceroneando o Padre Provincial, de passagem pela cidade. Ouvi dele tambem que eram pouquissimos os pertences que poderiam ser destinados aos amigos e familiares pois Padre Vicente distribuia tudo, exatamente tudo, não guardava nada, não acumulava nada!

A minha parte da herança, a parte que me coube foi um objeto que me emocionou e encantou. Recebi como herança a CRUZ MISSIONÁRIA do padre Vicente! Aquela mesma cruz de madeira e ferro que o jovem Vicente recebeu das mãos de seus superiores há mais de 60 anos atrás, em Parma, na Itália, quando de sua profissão religiosa.

É a mesma cruz que estava no baú quando do embarque no porto de Genova rumo ao Brasil, no distante ano de 1962....
É a mesma cruz que permaneceu pendurada em sua cabeceira por todas as noites de sua longa existência....
É a mesma cruz que consolou o missionário de espírito rebelde, tantas vezes incompreendido e criticado....
É a mesma cruz que ouviu as confissões mais intimas do jovem e do velho padre.....
É a mesma cruz que o acompanhou por tantas cidades paranaenses e paulista, como lembrança da necessidade e da urgência da missão....
É a mesma cruz que o consolou quando da morte de seus entes mais queridos....
É a mesma cruz que o acompanhou em seus retornos forçados á Itália, sem a certeza e o consolo do retorno....
É a mesma cruz que viu as lágrimas escorrerem de seu rosto cansado e sofrido, quando vieram as doenças e acidentes....
É a mesma cruz que o fez recuar e repensar nas ocasiões de exagero sem necessidade.....

É a mesma cruz que ouviu as orações e preces do Padre Vicentão.....
É a mesma cruz que teve que providenciar remédio, dinheiro, roupa, tábua, mantimento e tantas outras coisas para os pobres do Padre Vicente, tão valorizados e amados por ele.....

Padre Vicente esta sua cruz estará comigo para sempre. Será meu refúgio e consolo pelos caminhos da vida.
Fique em paz, grande amigo e pai dos pobres. Eu cuidarei da sua herança, desta jóia tão rara!

(Claudinei Pollesel, do Instituto Histórico e Geográfico de Piraciaba).

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